VIDE: Lugar
Filosofia
Marcia Sá Cavalcante Schuback
Excertos de "Para Ler os Medievais"
O que é deus e o que é o lugar de deus? Guardando a motivação do Eclesiástico, Mestre Eckhart começa enunciando três possíveis respostas à pergunta quem é deus. A primeira diz que "deus é algo diante do qual todas as coisas mutáveis e temporais nada são e tudo o que possui ser é diante dele pequeno"1 . A segunda diz que "deus é algo que necessariamente está além do ser, que em si mesmo de nada carece mas do que todas as coisas carecem". A terceira diz que "deus é uma razão que vive aí no conhecimento único de si mesmo". Mestre Eckhart escolhe a segunda resposta, pois vê nela maior propriedade. Por quê? A grande diferença entre as três respostas reside no significado dos três advérbios de lugar, empregados em cada uma delas. A primeira resposta define deus a partir do "diante de", a segunda a partir do "além"2 e a terceira a partir do "aí". A diferença reside, portanto, nas circunstâncias que cercam a significação verbal de deus. Mestre Eckhart deixa de lado o modo da contraposição implícito no "diante de" e o modo da unidade imediata expresso no "aí", e concentra sua interpretação na segunda resposta, que dimensiona deus a partir de um (ser) além (acima) do ser.
Como deus é além, acima do ser? Mestre Eckhart diz que esse acima não é o mesmo que uma esfera superior, independente do ser, como água e azeite. A explicação de Mestre Eckhart é de extrema simplicidade, deus é além, acima do ser, porque está em todas as criaturas de modo uno, resguardando a sua unidade. Pois o "que é uno em muitas coisas, deve necessariamente ser além, acima das coisas". O lugar de deus, a sua unidade, está em todos os lugares, mas igualmente para além de toda determinação espacial. Só assim deus pode ser o lugar de todos os lugares.
A simplicidade dessa explicação resume o que significa, para o espírito religioso medieval, o lugar de deus. O lugar de deus é em todas as criaturas, é em tudo o que é e não longe ou separado delas. Toda determinação do lugar de deus como lugar "exterior" é inteiramente contrária ao espírito medieval. Aqui não há lugar "fora" de deus. A diferença entre deus e as criaturas, entre transcendência e imanência é, estranhamente, uma diferença em deus. A imanência encontra-se dentro da transcendência. Isso justifica que Mestre Eckhart estabeleça a estranha sinonímia entre "ser em" e "ser acima ou além de". Estranha porque, de imediato, é difícil entender como um lugar que é dentro pode também ser acima. Para entender, no entanto, por que, sendo em todas as criaturas, deus é e está acima do ser, é preciso aprofundar o sentido desse "ser em", que constitui o lugar de deus. Mestre Eckhart explica o próprio desse "ser em", que constitui o lugar de deus, não como uma coisa que está dentro da outra, como uma cadeira está dentro de uma sala. Ele fala de um "ser uno em" muitas coisas. O sentido espacial ganha, na verdade, uma outra luz uma vez que não se trata de um ser qualquer, de uma coisa qualquer, mas do ser-uno. Esse ser-uno está e é acima e além de todo ser, de toda coisa. A diferença primordial encontra-se, portanto, dentro do sentido de ser: ser como coisa, ser como o existente-aí, por oposição ao ser-uno de deus em todas as coisas. Assim, o ser em, que define o lugar de deus, não se deixa apreender como o ser-em das coisas no espaço, onde o "dentro" significa apenas relação proporcional entre dimensões extensivas, ou seja, entre coisas-objetos unicamente definidas a partir de seus tamanhos. Quando dizemos, comumente, que uma coisa está dentro de outra, não nos referimos a nenhum modo de ser e estar, a nenhum caráter vivo das coisas, mas aludimos em primeira instância a um mero estar-aí das coisas3 . Dizemos que a cadeira está no cômodo, que o peixe está no aquário e, dessa forma, indicamos que duas coisas, que aí estão simplesmente, encontram-se numa relação espacial, estando uma dentro da outra.
Mas o lugar de deus não é o lugar de uma coisa. Não sendo "coisa", não sendo o que simplesmente está aí, o lugar de deus não pode ser compreendido com base na medida quantificável das coisas-objetos. Isso pode, de início, explicar por que, para o entendimento medieval, o espaço define-se, essencialmente, como lugar. É o lugar que fundamenta o espaço e não vice-versa. Como então definir a ideia medieval de lugar? A ideia medieval de lugar é uma ideia de lugar como experiência. O lugar define-se, fundamentalmente, como uma dinâmica de modos, como estrutura de modalidade. E, com isso, o lugar se apresenta como modo e circunstância de ser. Se, na gramática, o termo que exprime a circunstância da significação verbal é o advérbio, então podemos dizer que, para o medieval, o lugar é o advérbio de ser. Nesse sentido é que, para indicar o lugar de deus como o lugar de todos os lugares, Mestre Eckhart fala no ser-uno de deus, no seu ser-inteiramente, ser-indivisamente, ser-integralmente. E é a partir dessa significação adverbial, de modo e circunstância dos verbos da existência que se baseia a sua caracterização da essência do lugar4 . Quando o lugar se define como circunstância, como a estância circundante de ser, os vários "lá", "aí" são avaliados a partir do modo em que a existência se realiza e movimenta numa integração de suas ocupações e motivações. "Lá", "cá", "acima", "abaixo" não são ondes, mas movimentos, tendências e, por isso, índices de lugares-amplitudes, de regiões. Em oposição aos advérbios de lugar, o lugar adverbial significa a totalidade integradora das várias estâncias de um movimento, de um verbo.
NOTAS